A tecnologia a serviço da desumanização da espécie – Por Aldo Cursino*

Qual o nível de desespero quando você se esquece de seu aniversário de casamento? Aniversário de namoro ou de uma pessoa amada? E quando esquece o aniversário de seus filhos ou de seus pais? Terrível, com certeza! Mas nenhum, com certeza nenhum, se comparado ao desespero de sair de casa sem seu aparelho celular!

E nem digo isso pela preocupação com suas mais secretas confissões, que são feitas somente ao sagrado e “improfanável” smartphone, onde são depositados seus pecados e seus mais profundos e obscuros segredos e desejos.

Mas, digo sim pela relação quase divina que o ser humano tem demonstrado nos últimos anos por um aparelho eletrônico que até poucos anos era desconhecido e hoje faz parte de sua rotina até mais que os próprios moradores de sua casa, pessoas de sua família, amigos e colegas de trabalho ou de escola.

Os aparelhos celulares e seus aplicativos são responsáveis por boa parte do tempo disponível em nossos dias. Seja para ouvir música, ler notícias, assistir a filmes, vídeos e para jogos, mas indubitavelmente quase em sua totalidade para lidar com nossas redes sociais. E essa aplicação tem sido responsável pela substituição do ser humano, da conversa, do olhar e do sentimento.

Pouquíssimos são os “seres humanos” que hoje se atrevem a dizer que não expõe suas vidas em redes sociais e seja aquele prato que preparou ou que pediu em seu restaurante preferido (e que a foto na rede foi mais apreciada que o sabor do mesmo), um passeio, um “crush”, que posou ao seu lado ou para falar da vida alheia ou chorar as pitangas através de indiretas que seriam muito melhores resolvidas com uma palavra de carinho, com uma boa conversa ou com o bom e velho olho no olho. O ser humano abdicou do convívio humano para viver uma vida virtual.

Fato é que essa barreira, artificialmente criada pela aparente proteção proporcionada pelo aparelho celular, que possibilita ao usuário o poder de se excluir de qualquer discussão indesejada ou mesmo de excluir as pessoas de seu convívio com um simples toque na tela, vem excluindo também a capacidade do ser humano de resolver de fato seus problemas.

O ser humano vem perdendo a sua “humanidade” e sua valorosa capacidade de viver e conviver com outras pessoas e cada vez mais, se escondendo do mundo e deixando aflorar o que há de pior no “animal” chamado homem.

Quantas relações, quantos empregos, quantas emoções duradouras e reais têm sido facilmente barganhadas ou desfeitas por momentos atrás de uma tela pouco maior que a palma da mão?

Todos somos culpados por chegarmos a esse ponto, mas ainda resta a esperança de que a parte racional do ser, ainda há de se sobressair em determinado ponto da história e que nossa capacidade de conviver e viver plenamente com “pessoas reais” seja em um futuro bem próximo, a nossa nova realidade. Que possamos reaviar a emoção de um saudoso encontro, de sentir o calor humano, o cheiro e o real sabor dos pratos e a alegria de compartilhá-los, não com uma fria mas bela foto, mas confraternizá-los com entes queridos.

Que possamos retornar à nossa humanidade, em sua plenitude.

Em tempo, aproveitemos sim o melhor que a tecnologia possa nos proporcionar, mas demos de verdade nossa preferência às pessoas…

* Aldo Cursino dos Santos, químico e tecnólogo em gestão da qualidade, consultor, auditor em sistemas de gestão da qualidade e atuou por 20 anos na administração pública e em uma das maiores certificadoras de sistemas de qualidade mundiais

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