Data máxima vênia: Ribeirão Pires vive analogia à Biritiba de 2005. Por Luís Carlos Nunes

Antes de iniciarmos propriamente o nosso texto, sinto a necessidade de que dado o grave momento ao qual vivemos, diante da mais terrível crise deste século, com a pandemia do coronavírus que já vitimou 2.686.366 pessoas (dados de hoje, 19.mar.2021), o presente texto não é deboche ou desrespeito a quem quer que seja. Trata-se apenas, e tão somente de analogia entre fatos.

Justamente por esta razão, no título, é expresso:  “Data máxima vênia”.

Segundo o dicionário “DireitoNet”, Data máxima vênia trata-se de expressão em latim, de uso muito comum em tribunais é utilizada para, muito respeitosamente, discordar de ou contrariar a ideia ou opinião de outrem; com o máximo respeito, por exemplo.

Dito isso, ainda na noite desta 5ª feira (19.mar), em postagem do Repórter ABC, intitulada “Cemitério de Ribeirão Pires, com 54 mil sepulcros, somente 20 estão disponíveis” que fora compartilhada na redes sociais, um comentário me chamou a atenção.

Uma leitora trouxe a tona, um fato ocorrido no ano de 2005 na cidade de Biritiba-Mirim onde o prefeito da época, Roberto Pereira da Silva, conhecido por Jacaré fez uma proposta de Lei das mais inimaginadas:

“Fica proibido morrer em Biritiba-Mirim. Os munícipes deverão cuidar da saúde para não falecer”, lê-se no projeto”.

Surreal! O Jacaré (sem vacina) proibiu que os biritibanos morressem!

Segundo o Portal português “O Público“que fez a cobertura à época, reportou em seus anais:

… “que precisa que os infractores serão responsabilizados pelos seus actos, até que o Ministério do Ambiente desbloqueie o projecto de construção de um novo cemitério”.

A Biritiba Mirim da época tinha uma população estimada de 28 mil habitantes e o espaço para sepultamentos há muito tempo que havia sido esgotado.

“Os túmulos estão colados uns aos outros, e até as zonas de passagem para peões foram já ocupadas. Ao todo, existem 3.500 jazigos para as 50 mil pessoas ali enterradas. Vinte residentes que morreram desde Novembro foram mesmo obrigados a partilhar um jazigo”, registrou o periódico luzitano lisbonense.

A região de Biritiba-Mirim fica por cima de uma das maiores reservas de água do estado de São Paulo, razão pela qual o instituto de proteção dos recursos hídricos impedido a construção de um novo cemitério ou mesmo a ampliação do que existia, inaugurado em 1910. Para agravar ainda mais a situação, as leis ambientais brasileiras não possibilitavam o recurso à cremação.

Mas Jacaré, diante das dificuldades em garantir enterros com toda a dignidade a qual merece um falecido, arquitetou uma mega estratégia de marketing. O prefeito Jacaré nadou de costas e ganhou os holofotes da grande imprensa: O Estado de São Paulo, O Globo e a imprensa internacional davam destaque à iniciativa do alcaide de alcunha reptiliana.

Em declarações à agência Associated Press á época, um conselheiro de Jacaré admitiu que a lei era “ridícula, inconstitucional, e que nunca seria aprovada”, ressalvando que o resultado da proposta é, para todos os efeitos, positivo:

“Consegue imaginar uma estratégia de marketing melhor do que esta… que pressione o Governo a modificar a legislação que trava a construção de um novo cemitério?”, disse o assessor.

Jacaré deve ter causado muita inveja a Philip Kotler ao conseguir fazer escola, onde o prefeito da vizinha Salesópolis,  começou também a aplicar formas “imaginatórias” de pressão sobre o Governo. “O prefeito – onde oito mil pessoas estavam sepultadas num cemitério abarrotado, de 15 mil metros quadrados e dois mil jazigos – garantiu ao jornal de São Paulo que o município já havia criado o Movimento dos Sem-Túmulos e que pretende impugnar a lei que proíbe a instalação de cemitérios em áreas sob proteção ambiental”.

“Deverasmente”, uma autêntica e “atentatória” paródia ao Bem Amado da fictícia cidade de Sucupira.

Jacaré com seu projeto de proibir morrer no município deu certo. A pressão obrigou o Conselho Nacional do Meio Ambiente (Conama) a mudar a resolução sobre o tema e um novo cemitério foi construído e inaugurado em 2010, no Jardim Takebe, com capacidade para 12 mil sepulturas. Já se podia morrer por lá, e a vontade!

Analisando a epopeia de Jacaré e atualizando para os tempos atuais, o Prefeito de Ribeirão Pires a turras com todos aqueles que desrespeitam as normas sanitárias para que se inibam a proliferação dos casos de contágio pelo coronavírus, clama para que não se aglomerem, que fiquem em casa pois as unidades de saúde da cidade estão com os seus leitos tomados em 100% e que só há na comuna apenas umas 20 covas no cemitério municipal.

Ribeirão Pires que tem todo o seu território em área 100% de preservação ambiental, em área de manancial, que é produtora de água que abastece alguns milhões de pessoas na região metropolitana de São Paulo, vive situação análoga ao drama vivido  da Biritiba-Mirim de 2005.

Mas é claro, ir a uma estratégia de marketing agressiva e arrojada como foi o prefeito Jacaré, isso já é demais! Isso pertence a esfera do imponderável! Nisso eu não acredito! Melhor é usar o trator e dar um jeito de fazer puxadinhos na atual necrópole.

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