O que Lutero pode ensinar aos evangélicos atuais sobre o coronavírus. Por Rodrigo Hirose

Martinho Lutero, o pai da reforma protestante, pregou pelo isolamento social

Em tempo da gravíssima pandemia do coronavírus onde já passa de 5,5 milhões de vidas já ceifadas mundo afora, e liderança pressionam pela liberação da realização de cultos e missas, o Repórter ABC resgata importante texto do jornalista Rodrigo Hirose, editor do Jornal opção publicado em maio de 2020.

No texto, Horise faz um resgate Histórico sobre o posicionamento de Martinho Lutero, pai da revolução protestante que viveu no século XVI a temível “peste negra” que estima-se chegou a matar entre 75 à 200 milhões de europeus e asiáticos.

Embora existam enormes e evidentes diferenças entre aquele século e o nosso, também se constatam surpreendentes semelhanças, especialmente, mas não só, nas atitudes das pessoas diante da doença.

Uma primeira diferença é que a pandemia da Idade Média foi causada por uma bactéria (a Yersinia pestis), e a atual, por um vírus. Outras diferenças incluem uma mortalidade muito maior da peste negra do que a provocada, até agora, pela COVID-19.

No artigo, além do contexto histórico, o jornalista Rodrigo Hirose apresenta defesa do isolamento social e outras orientações do líder da Reforma da igreja no século XVI, dr. Martinho Lutero.

Boa leitura. Luís Carlos Nunes, Repórter ABC.

Em carta do século 16, o monge que deu início à reforma protestante defendia o isolamento social, enquanto os pastores atuais lutam para manter as igrejas abertas

Uma década depois de afixar na porta da Igreja do Castelo de Wittenberg as 95 teses que culminaram na reforma protestante, no século 16, o monge agostiniano Martinho Lutero lidava com uma nova onda da peste negra – a pandemia mais devastadora da humanidade, que havia ceifado a vida de milhões de pessoas no século 14. Causada por uma bactéria, cujos hospedeiros são pulgas que parasitam roedores – especialmente ratos –, a doença pode ter matado até 200 milhões de europeus e asiáticos.

Em 1527, a peste bubônica rondava a cidade alemã onde vivia o monge – a história conta que parentes do próprio Lutero estavam entre as vítimas. Muitos moradores de Wittenberg deixavam a cidade, temerosos. Johan Hess, pastor de Breslau, na Polônia, havia pedido ao monge conselhos sobre se cristãos deveriam ou não temer a praga – uma prova de fé.

Lutero, que havia decidido permanecer em sua cidade para ajudar os doentes, escreveu o panfleto intitulado “Se Alguém Deve Fugir de uma Praga Mortal”. O pai da reforma adota, no documento, um tom compreensivo. Não condena aqueles que temiam a doenças e que preferiram fugir. Mas dá uma lição de fé e de apreço à ciência.

Em Lutero como conselheiro espiritual – A interface entre a teologia e a piedade nos escritos devocionais de Lutero, o professor e pesquisador Dennis Ngien conta que o monge admite o caráter pedagógicos dos flagelos a ele impostos por Deus. Mas o reformador prescreve, em sua carta, uma espécie de cartilha de comportamento para os cristãos.

Em determinado trecho, Lutero relata que roga, em orações, pela proteção divina. Essa confissão de fé, contudo, não o libera de tomar os cuidados necessários.

“Então farei vapor, ajudarei a purificar o ar, a administrar remédios e a tomá-los. Evitarei lugares e pessoas onde minha presença não é necessária para não ficar contaminado e, assim, porventura infligir e poluir outros e, portanto, causar a morte como resultado da minha negligência”, diz.

Diante de tais cuidados, porém, o reformador se submete aos desígnios divinos.

“Se Deus quiser me levar, certamente me levará”, resigna-se. Contudo, faz questão de deixar claro que as medidas profiláticas são coerentes com “a fé que teme a Deus, porque não é ousada nem insensata e não tenta a Deus”.

Passaram-se pouco mais de 500 anos da reforma protestante e o ser humano se vê novamente encurralado por um inimigo invisível: desta vez, um novo membro da família dos coronavírus, o Sars-CoV-2, causador da Covid-19. E, neste momento, curiosamente segmentos religiosos, especialmente os evangélicos, têm se afastado da lição daquele que lançou as bases do protestantismo – de quem, portanto, lançou as bases de todo o movimento que culminou nas igrejas evangélicas contemporâneas.

Pressão

Os líderes religiosos estão entre os que mais pressionam os governos pelo fim do isolamento social. Lideres religiosos e pastores das mais diversas denominações pressionam Brasil afora para liberar a realização de cultos e missas.

Entre as alegações, a necessidade de dar conforto espiritual para os fiéis nesse momento de dor, choro, medo e ansiedade.

Igrejas, de qualquer matriz, têm importante papel social. Além de preencherem a necessidade humana de encontro com o divino (mesmo os ateus a têm, ainda que seus deuses sejam outros), elas estão onde, muitas vezes, o Estado não está, como nas prisões e nos rincões amazônicos, por exemplo.

Mas não são – ou não deveriam ser – organizações com fins econômicos. Por isso, gozam de benefícios, como isenção de alguns impostos. A falta de arrecadação, portanto, em momento algum deveria servir de justificativa para reabertura diante de uma pandemia causada por organismo infeccioso.

Aglomeração

Os religiosos alegam que as medidas sanitárias, como distanciamento entre os fiéis, fornecimento de álcool em gel e uso de máscara, são tomadas. Contudo, quem passa em frente de alguns templos percebe que a aglomeração de pessoas não tem sido contida. Coincidentemente – ou não –, algumas das maiores igrejas abertas estão incrustradas nos bairros onde há o maior número de pessoas infectadas.

Ao manter as celebrações, os líderes evangélicos incentivam as pessoas a se reunirem e colaboram para o aumento do número de casos da doença. Com o argumento de que precisam arrecadar, se esquecem de outra lição de Lutero, expressa nas teses 27 e 28 do documentos fixado nas portas da Igreja de Wittenberg:

  1. Pregam doutrina humana os que dizem que, tão logo tilintar a moeda lançada na caixa, a alma sairá voando.

  2. Certo é que, ao tilintar a moeda na caixa, podem aumentar o lucro e a cobiça; a intercessão da Igreja, porém, depende apenas da vontade de Deus.

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