Real só não se desvaloriza mais do que moedas do Sudão, Líbia e Venezuela

Em 2021, o real perdeu mais valor do que o peso argentino, que tombou 6,9% em comparação com o dólar

O real só não se desvalorizou mais do que as moedas do Sudão, Líbia e Venezuela em 2021. Perdeu 8,6% em valor em comparação com o dólar. É o que mostram dados de relatório produzido pela Austin Rating.

A moeda do Sudão (Nova Libra Sudanesa) foi a que mais desvalorizou: -85,3% no ano. Em seguida, aparecem a Dinar, da Líbia (-70,1%), e a Bolivar Soberano, da Venezuela (41,9%). Em 2020, a divisa do Brasil foi a 6ª pior.

Em 2021, o real perdeu mais valor do que o peso argentino, que tombou 6,9% em comparação com a moeda dos Estados Unidos.

De acordo com a Austin Rating, a desvalorização do câmbio do Brasil é um efeito de carry trade, que significa o diferencial da taxa de juros pagas nos títulos dos EUA e as cobradas nos títulos brasileiros com o mesmo vencimento. Há um temor no mercado financeiro de que haja uma piora das condições fiscais do país, com uma expansão maior do que o esperado da trajetória da dívida.

Os operadores acompanham a tramitação de reformas, principalmente a PEC (proposta de emenda à Constituição) emergencial, que permite a redução dos gastos obrigatórios em momentos de aperto orçamentário. Mais de 90% das despesas do Brasil são carimbadas –não estão sob controle do governo.

Em 2016, para sinalizar o ajuste fiscal ao mercado, o Congresso aprovou a Emenda Constitucional do teto dos gastos, que evita que o custo da máquina pública fique acima da inflação. O orçamento do Brasil está no vermelho –gastos superam receitas– desde 2014. Qualquer tipo de movimento que coloque a regra sob risco provoca turbulência nos ativos financeiros, como foi registrado nos últimos dias.

Além da pauta política, os economistas analisam o desempenho da atividade econômica com a 2ª onda de covid-19 e os anúncios de lockdown nos Estados. Em 2020, o PIB (Produto Interno Bruto) do país recuou 4,1%, a maior queda em 24 anos. Segundo o Boletim Focus, que divulga projeções dos analistas do mercado, o Brasil deve crescer 3,29% neste ano em comparação com 2020, dada a forte retração do ano passado.

A pandemia de covid-19 e as medidas de distanciamento social podem piorar as projeções dos analistas, diminuindo o ritmo de recuperação da economia. Além disso, existe a necessidade do Copom (Comitê de Política Monetária) em aumentar a taxa básica Selic para controlar a inflação.

O dólar alto, o preços dos combustíveis caros –num país que depende da malha rodoviária– e o novo auxílio emergencial tendem a aumentar a inflação. Projeções de economistas indicam que o IPCA (Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo) anual pode rodar próximo de 7%, bem acima do teto da meta de 2021, de 5,25%.

Os juros mais altos são o remédio mais ortodoxo contra a inflação e a desvalorização da moeda, mas há um efeito colateral, que é o encarecimento da dívida pública. O estoque chegou a R$ 6,670 trilhões, o que corresponde a 89,7% do PIB (Produto Interno Bruto).

Mesmo com queda menor do PIB em 2020 em relação aos seus pares e reserva em dólar robusta, o real teve um desempenho pior do que outras moedas.

Atualmente, os juros estão em 2% ao ano, o menor nível de estímulo da história. O Itaú Unibanco estima que a Selic ficará em 5% ao ano. A próxima reunião do comitê será em 16 e 17 de março. Os operadores aumentaram as apostas para que a Selic suba em, pelo menos, 0,25 ponto percentual (para 2,25% ao ano).

Inflação na mira

O risco de inflação elevada e o crescimento baixo, potencializados pela fragilidade fiscal do Brasil, explica parte da desvalorização do real. A moeda brasileira se descolou dos países emergentes.

Segundo a Austin Rating, de março de 2020 até esta 6ª feira (5.mar.2021), o real desvalorizou 21% e a cesta de 16 outras moedas de países emergentes (que respondem por 30,1% do PIB global) valorizou 0,3%. Destaca-se o Peso Chileno (+10,6%) e do Renminbi Chinês (7,2%).

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