Após liderar movimento contra machismo nos quartéis, tenente-coronel é alvo de grupo de ódio na internet

O movimento contra assédio a mulheres e o machismo na estrutura militar lançado pela tenente-coronel Camila Paiva, do Corpo de Bombeiros de Alagoas (CBM/AL), vem recebendo o apoio e engajamento de mulheres em todo Brasil, tornando-se uma luta além da esfera dos quartéis. Porém, despertou a atenção também de uma rede virtual de ataques de ódio e misogina, que tem como alvos feministas, LGBTs, universidades, movimentos contra o racismo.

Em sua rede social, a oficial denunciou o ataque que sofreu em mensagem a ela enviada.

“Recebi ameaças por meio das redes sociais. Pegaram meus dados pessoais, CPF, endereço, telefone, como forma de me amedrontar por causa do nosso movimento e da nossa união”, disse Camila.

Ela procurou a polícia, fez um Boletim de Ocorrência na Delegacia Interativa, e enviou o material para o delegado titular da Delegacia de de Crimes Cibernéticos em Alagoas, José Carlos. Ela esteve acompanhada da advogada Julia Nunes, presidente da Associação para Mulheres (AME).

Camila já suspeitava que a ameaça não tinha a ver com o movimento contra o machismo que ela iniciou, intitulado #SOMOSTODASMARIAS. Ao Eufemea, Camila informou sobre o conteúdo que recebeu.

“Não acho que essas ameaças sejam motivadas pela denúncia do PM em si, porque nas mensagens ele deixa claro o ódio pelas feministas, LGBTs e militantes, então o ódio é  pelo fato de eu ter criado a campanha, essa campanha estar ganhando força e eu estar defendendo a minha liberdade de fazer o que eu quiser na minha vida privada e incentivando outras mulheres também. Ele me chama de vagabunda por ser bombeira e ter foto de biquíni no meu Instagram pessoal. E na descrição do perfil dele tem escrito: MORTE AS FEMINISTAS, LGBTS E MILITANTES”.

A história chegou ao conhecimento da professora da Universidade Federal do Ceará, Lola Aronovich, que entrou em contato com a tenente-coronel Camila para prestar solidariedade e alertar sobre os grupos de ódios que praticam crimes cibernéticos, dos quais ela, Lola, já foi vítima.

Na conversa, Lola explicou à oficial de Alagoas que os chans são fóruns anônimos, também chamados de imagens boards. “São celeiros para a misoginia, racismo e LGBTfobia, infelizmente. E também para planejamento e comemoração de massacres em escolas e universidades”, me disse a escritora.

Camila  informou ainda que ao saber que seu nome e todos os seus dados pessoais estavam em um desses grupos, ficou atordoada.

“Recebi mensagem dessa pessoa (o ameaçador) no meu direct. Depois, eu recebi de uma bombeira do Acre mensagens da Lola Aronovich, que sofreu muito, ela e o marido, perseguição e o agressor foi condenado a 40 anos. Por ter sido vítima, ela conhece os endereços dos links que dão nessas salas onde eles discutem, colocam os alvos. E aí ela entrou em um desses chans e viu minhas fotos, dados pessoais e um deles justamente orquestrando ataques contra mim”.

“Ela não tem Instagram, justamente por causa disso tudo que sofreu. Ela conhece a bombeira, que é do Acre e falou: não conheço essa coronel do Bombeiro de Alagoas, mas você conhece ela? Entrei num chan e estava orquestrando ataques contra ela. Pegou os prints, mandou para essa bombeira, que enviou para mim, foi quando vi que o negócio realmente era sério”.

“Lei Lola” 

Em 2018, foi sancionada pelo então presidente da República, Michel Temer, lei que determina que a Polícia Federal investigue crimes virtuais contra as mulheres.

A chamada “Lei Lola” alterou a Lei nº 10.446/2002, para que os crimes que propagam ódio ou aversão às mulheres praticados por meio da internet sejam acrescentados no rol de delitos investigados pela PF. Até então, a PF podia atuar em crimes como sequestro, formação de cartel e violação dos direitos humanos quando houver repercussão interestadual ou internacional.

O projeto de lei é da deputada federal Luizianne Lins (PT-CE), que se inspirou no caso da professora Lola Aronovich, alvo de ataques na internet por conta de um blog de autoria própria.

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