Bolsonaro fez 245 ataques contra a imprensa em 2020. Veja a linha do tempo

O presidente Jair Bolsonaro fez 245 ataques contra o jornalismo no primeiro semestre de 2020. O monitoramento foi feito pela Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj) e divulgado nesta quinta-feira (2). Segundo a entidade, aconteceram 211 casos de descredibilização da imprensa, 32 ataques pessoais a jornalistas e 2 ataques contra a Fenaj. “São quase dez ataques ao trabalho jornalístico por semana, neste ano”, aponta o levantamento.

“Para além dos números, os dados mostram que as notícias sobre as ações do governo ou a postura do presidente sobre diversos assuntos transformam a imprensa em sua ‘inimiga’, com a construção de uma narrativa de ataques com o objetivo de promover a descredibilização do trabalho jornalístico e da credibilidade da produção de notícias. Algumas vezes o presidente coloca a imprensa e os jornalistas como ‘inimigos do País’, por conta de coberturas que o desagradam”, afirma a entidade.

Esse monitoramento abarca as declarações públicas de Bolsonaro durante lives, conteúdo publicado no Twitter, vídeos de entrevistas coletivas em frente ao Palácio do Alvorada e os discursos e entrevistas disponibilizadas no portal do Planalto.

Casos

Segundo a Fenaj, entre janeiro e a primeira semana de março, o presidente Bolsonaro rotulou a imprensa como mentirosa, omissa, sem credibilidade ou confiabilidade, ele disse ainda que “a imprensa atrapalha, é uma vergonha, deturpa, esculhamba, tripudia, que falta notícias verdadeiras, chama de fake news, que destrói reputações”, aponta o levantamento. Em fevereiro, o jornalismo profissional sofreu ataques misóginos e homofóbicos por parte do presidente.

A Fenaj relembra que Jair Bolsonaro colocou um humorista para distribuir bananas aos profissionais da imprensa, além de fazer gestos ofensivos contra os jornalistas.

Cobertura da pandemia

No dia 10 de março o presidente iniciou os ataques à cobertura que a imprensa tem feito da pandemia da covid-19. Durante discurso em sua viagem aos Estados Unidos, o chefe do Executivo afirmou que a mídia propaga “fantasia”. Jair Bolsonaro também afirmou que “grande parte da mídia potencializou em cima desse evento”, disse que jornais buscavam o caos, além de afirmar que o povo “foi enganado” por governadores e “grande parte da mídia” em relação ao coronavírus.

Os ataques dos apoiadores do presidente, muitos incentivados por ele, também foram relatados pelo levantamento. No dia 23 de março, Bolsonaro afirmou que intrigas alimentam o pânico e que jornalistas “insistem em falar em assuntos” que alimentariam essas intrigas, ao postar em seu Twitter anúncios sobre a covid-19.

No dia seguinte fez pronunciamento em cadeia de TV e rádio afirmando que meios de comunicação “espalharam exatamente a sensação de pavor” e pela primeira vez associa a atuação da imprensa no contexto da pandemia como causadora de “histeria”.

Na mesma semana, atacou os repórteres que realizam a cobertura no Alvorada, questionando a presença deles no local e se não estão com medo do coronavírus e repetiu a associação à histeria.  No dia 27 de março, Bolsonaro comparou a imprensa a um vírus “pior que coronavírus”.

Em junho, mês em que o Brasil ultrapassou 50 mil mortes pela covid-19, Bolsonaro disse que grande parte da imprensa criou “estado de pânico junto à população”, como ocorrido dia 2 de junho, em entrevista coletiva em frente ao Alvorada, ou no dia 5 de junho, quando afirmou que veículos de imprensa (cita Jornal Nacional e O Globo) “gosta de dizer que o Brasil é recordista em mortes”.

No dia 9 de junho, Bolsonaro disse que as manchetes acusam o governo federal “como se a responsabilidade fosse exclusivamente minha”. Nesse mesmo dia, ele falou que “o pânico foi pregado lá atrás, por parte da grande mídia”, que “teima em rotular este governo”.

Porém em junho o número de ataques foi reduzido, com 28 ocorrências, todas classificadas como “descredibilização da imprensa”. “Não inserimos neste relatório alguns casos que denotam mudança de postura do presidente em suas postagens no Twitter e discursos oficiais disponibilizados pelo Planalto, em que Bolsonaro usa de expressões de ironia para se referir ao trabalho da imprensa, mas sem desferir ataques”, explica a Fenaj.

Agressões a jornalistas

O presidente fez diversos ataques contra os jornalistas que trabalham na cobertura da atividade presidencial. Em abril, o chefe do Executivo chamou os jornalistas de urubus e disse que os mesmos trabalham “amontoados”, porém, os trabalhadores estavam ali sob as condições proporcionadas pelo próprio governo federal.

Dia 5 de maio, durante entrevista coletiva no Alvorada, o presidente mandou jornalistas “calarem a boca” e usou os adjetivos “patifaria” e “canalha” para se referir ao teor de matérias jornalísticas. Na mesma semana, o presidente anunciou um churrasco durante a pandemia e depois chamou os jornalistas de “idiotas” por acreditarem em “fake news” que havia sido criada por ele mesmo.

Ao se referir as agressões físicas contra jornalistas em manifestações de seus apoiadores, no dia 11 de junho, Bolsonaro disse que “se são agredidos, saiam dali, pô! Vocês não tão obrigados a ficar ali”, para a imprensa.

Violência contra jornalistas

Diante dos ataques do presidente, muitos apoiadores acabam, segundo a Fenaj, se sentindo estimulados e partem para a agressão física contra jornalistas. No dia 10 de abril, em São Paulo, o repórter Renato Peters estava ao vivo quando teve o microfone arrancado por uma apoiadora do presidente.  No mesmo mês, em Salvador, ao menos dois repórteres foram perseguidos por apoiadores de Bolsonaro, conforme mostra o levantamento.

  • Em 19 de abril, em manifestação com pautas pró-ditadura e com a participação de Jair Bolsonaro, em Brasília, equipes de reportagem foram agredidas fisicamente e expulsas do local. No mesmo dia foram registradas agressões a jornalistas em Porto Alegre e em Fortaleza.
  • No dia 1º de maio, jornalistas e manifestantes em Brasília foram agredidos por simpatizantes de extrema-direita, em protesto de trabalhadores da saúde.
  • No dia 2 de maio, em Curitiba, o repórter cinematográfico da RICTV, filiada da Record no Paraná,  Robson Silva, foi alvo de agressão física durante cobertura do depoimento do ex-juiz Sergio Moro na Polícia Federal, e quase teve o equipamento danificado.
  • No dia 14 de maio, muros em Belo Horizonte amanheceram pichados com apologia ao assassinato de jornalistas e atentados contra a imprensa. “Jornalista bom é jornalista morto”, era uma das mensagens nos tapumes na Avenida Alfredo Balena. “Colabore com a limpeza do Brasil, mate um jornalista, um artista, comunista por dia”, dizia outra.
  • No dia 17, uma apoiadora do presidente bateu com o mastro de uma bandeira na cabeça de uma repórter da Band.
  • No dia 20,o cinegrafista Robson Panzera, da TV Integração, afiliada da Rede Globo em Barbacena (MG), foi agredido por um militante que gritava palavras de ordem contra a emissora. O profissional teve sua mão quebrada ao ser atingido pelo tripé da câmera.
  • Em 25 de maio, apoiadores do presidente xingaram e se aproximaram de jornalistas que cobrem as entrevistas coletivas diárias de Bolsonaro, na saída do Alvorada. O episódio fez com que empresas jornalísticas deixassem de mandar repórteres ao local.
  • No mesmo dia, um grupo de bolsonaristas atacou jornalistas que estavam em frente ao Ministério da Defesa, onde o presidente Jair Bolsonaro almoçava  com o ministro General Fernando Azevedo e Silva. Um dos homens ficou a centímetros do rosto dos jornalistas e, sem máscara, gritou e hostilizou os repórteres. “Vai tomar no seu cú, cuzão. Vai se foder, filho duma puta. A gente tá aqui pela sua família, cuzão, a gente tá aqui pela sua família. A gente tá aqui pela sua família, cuzão. A gente tá aqui pela sua família, seu bosta. Você tá fazendo o que aqui? Tá trabalhando por que? Lixo!”, disse um militante do bolsonarismo a um dos repórteres.
  • No dia 22 de junho, apoiadores de Bolsonaro hostilizaram um repórter na Avenida Paulista, em São Paulo, e ele precisou se retirar da cobertura. Além disso, ao longo do semestre, jornalistas que fazem cobertura crítica ao governo foram atacados nas redes sociais, e alguns até tiveram seus dados pessoais vazados.

A Associação Brasileira de Emissoras de Rádio e Televisão (Abert) afirma que em 2019 a mídia profissional sofreu 11 mil ataques por dia via redes sociais. A média é de sete agressões por minuto. Os dados estão no relatório anual sobre Violações à Liberdade de Expressão.

Acesse aqui a Linha do Tempo (jan a jun/2020)

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