O padroeiro dos políticos e o rebanho sem santo, por Luís Carlos Nunes

O homem não pode ser separado de Deus, nem a política da moral”, disse São Tomás More, declarado padroeiro dos governantes e dos políticos pelo Papa João Paulo II no ano de 2000.

Pouquíssima gente sabe, mas os políticos têm um santo padroeiro para chamar de seu. E não é São Dimas ou mesmo Judas Iscariotes, como se poderiam pensar. A cada 22 de junho, comemora-se o dia de São Tomás More, padroeiro dos governantes e políticos.

Pobre do Tomás. Esse deve ter muita “dor de auréola” com seus benditos apadrinhados.

Bom seria se nossos políticos seguissem o exemplo de vida do santo padroeiro. Formado em direito, o britânico Tomás More foi um intelectual brilhante, reconhecido tanto por seu bom-humor (com sacadas muito mais engraçadas do que as do Bolsonaro ou mesmo do Tiririca) quanto por seu bom coração (sempre ajudou os pobres, sem pedir votos em troca). Aliás, ele sonhava com um mundo de harmonia e igualdade, onde todos trabalhariam pelo bem comum, – ideal que deixou registrado em sua obra mais conhecida, o livro Utopia – a ponto de o considerarem um dos pais do comunismo, um “santo comunista”.

Por volta de 1530, quando Tomás More era chanceler do Parlamento da Inglaterra, o rei Henrique VIII resolveu enfrentar a Igreja para anular seu matrimônio com a rainha Catarina de Aragão e se unir com a ambiciosa Ana Bolena (assistam ao filme ‘A Outra’). Depois de fazer o Parlamento inglês reconhecê-lo chefe da Igreja da Inglaterra, afastando-se em definitivo da Igreja Romana, Henrique VIII mandou matar seus opositores: entre eles Tomás More, que foi decapitado em 1535 por não renegar a fé católica. Bem diferente dos nossos políticos atuais, que mudam de partido, de aliados e de discurso a qualquer momento, e renegam seus eleitores, suas próprias histórias, sem nenhum pudor, em nome do poder.

E nós, pobres eleitores mortais, temos padroeiro? Há quem diga que é “São Nunca”… Brincadeiras à parte, o grande santo dos eleitores ainda não foi canonizado adequadamente por nós: o voto consciente.

Só o voto consciente pode realizar o milagre de mudar nossa aterrorizante realidade política. Só esse santo (o voto consciente) pode abrir os caminhos e as porteiras para um futuro melhor.

Por falar em porteiras, vale a pena ressaltar uma lição que tive enquanto residi na região oeste da Bahia.

Por aquelas bandas do axé, cuscuz e assado de bode firmei forte amizade com Salustiano Oliveira, meu grande amigo saudoso também conhecido por Salú.

Salú era homem de grande simplicidade, um José da Silva, como tantos outros. Religioso de grande fervor era um autodidata, um filósofo do sertão, compreendia de tudo ao seu redor. Com uma varinha descobria o ponto exato para a abertura de um poço d’água, fazia leitura da natureza profetizando com quase exatidão o dia da chuva, pois a movimentação dos pássaros o avisava, o trabalho das formigas armazenando alimento denunciava a proximidade das águas e a quantidade de nuvens no céu era o grande prenúncio.

E, como poucos, apesar da escassa instrução formal, ele era dotado de profunda sabedoria, que vinha à tona em frases sóbrias.

Salú não era envolvido com política, nem se interessava muito pelo tema. Mas uma de suas lições marcantes me vem à cabeça durante os períodos eleitorais, ou quando fico sabendo de novos escândalos políticos (praticamente todos os dias).

Eu, um urbano da capital paulista nascido na Freguesia do Ó, era recém chegado e observava a tropa de gado sendo marcada a ferro em brasa. De repente, um dos bois conseguiu se desvencilhar dos ferradores que o imobilizavam com uma corda que apertava o seu ventre. O boi deu uma cabeçada no mourão, quase arrebentando a grossa tora. Ao ver a cena, amedrontado, perguntei a Salú se aquele rebanho não poderia se unir para nos fazer atacar.

Ele respondeu, cravando a tal frase de que me recordo muito bem: “Não! Eles não sabem a força que têm”.

Salúzinho, – como eu o tratava carinhosamente – pessoa franzina e com aspecto de idade avançada em função de árduo trabalho na roça desde a sua infância, era um homem de extrema honestidade, falava de bois.

Mas a frase bem poderia sair da boca de um político corrupto, falando aos parentes e apadrinhados sobre seus eleitores.

“Salú, estão te chamando de ladrão. O povo não pode fazer mal ao senhor? Eles não vão acabar com a minha mamata, daquele cargo em comissão que eu nunca ocupei de verdade, não é?”, devem questionar tais protegidos e herdeiros políticos, como é de se esperar.

“Não se preocupe, fantasminha camarada, para nossa sorte, eles desconhecem a força que têm. Fazemos o mal feito hoje e amanhã eles já se esquecem”, devem responder os muitos coronéis sem farda que mantêm verdadeiros currais ainda nos tempos atuais.

De fato, infelizmente, grande parte do povo comporta-se politicamente de maneira bovina. Alguns dão suas cabeçadas, mas raramente conseguem a adesão da massa. Eles não querem ou não sabem de sua força, da força da união de todas as forças juntas.

É preciso parar de ruminar e agir. Em verdade, de quatro em quatro anos, abre-se uma grande porteira no curral para sairmos por ela.

É preciso que votemos de maneira mais consciente e responsável. Ou todos nós continuaremos a ser ferrados, como uma ignorante e submissa tropa de gado.

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